cozinheiro

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Saiu da minha cabeça

segunda-feira, 29 de agosto de 2022


 

Buscar a essência da arte é fazer arte.

   Aristóteles diz que o artista produz do mesmo modo que a natureza. A única diferença está no produto da arte, que é um artefato, um ser de ficção, que, no entanto, é igualmente real assim como os produtos gerados pela natureza ( como o próprio artista que coisifica a ficção). Ou seja, estamos (somos) numa obra de arte, reproduzindo arte, utilizando nossos talentos para preencher em ato a natureza com a potencia que ela mesma possui na imanência do indivíduo artista, como quando criamos um brinco de ouro(ficção) com o ouro ( substância da natureza) para enfeitar uma moça formosa (a natureza). O artista é um agente de transformação e continuidade às contingencias possíveis na aquarela do Artista Supremo. A arte é o gênio humano valorizado no Renascimento, a capacidade de cocriar, como um fenômeno da natureza, entes contingentes em potencia, sem forçar o devir dialético em encaixar-se aos moldes estruturados pela ânsia do devaneio egocêntrico em gritar "Eureka! Confinei o infinito em minhas respostas convincentes, para minha própria conveniência!" Algo parecido com o garotinho que iluminou Agostinho de Hipona, quando este, observando um garoto tentar encher o buraco que fez na praia com a agua que transportava do mar até o mesmo, percebeu que tentar alocar a completude do Summum Bonum e do Noûs em sua própria mente, é a anti-arte suprema.

   Podemos considerar a estética, com suas infindas interpretações e categorizações, como uma espécie de hermenêutica do Belo. Assim como a concepção de gosto trouxe uma nova perspectiva à problemática da argumentação sobre as propriedades subjetivas e intersubjetivas, oriundas das considerações sobre as condições do que busca-se etiquetar como Belo, a coisidade da harmonia foi atrelada às faculdades inerentes de processamento inteligível-conceitual e a captação de estímulos sensoriais por parte do ente humano, como as famosas categorias a priori de entendimento e sensibilidade de Kant. Agora, o Belo é o resultado da configuração inteligível, um subproduto relativo, manufaturado de acordo com os elementos fornecidos como matéria-prima (dados sensoriais) e a absorção, integração e assimilação desse material com as demais estruturas cognoscitivas da massa cinzenta no sistema nervoso central, junto ao banco de memórias e os conhecimentos previamente estabelecidos. Não podemos assegurar que os objetos e demais entes e fenômenos naturais possuam substância própria, mas antes, podem ser apenas resultado do processamento e consequentes respostas funcionais do nosso aparato nervoso, autônomo e central, que delimitam o campo externo da existência em espaço e tempo. O Belo, a arte, o Bom e a Estética são criações subjetivas construídas à partir de efeitos subjetivos do campo fenomênico, que sensibilizam os órgãos dos sentidos. A arte é o Universal, à partir da qual construímos obras de arte, ou as obras de arte particulares insinuam aproximações indistintas da arte como categoria suprema na qual se aninham e desenvolvem sentidos artísticos variados?

   O Belo, em meu humilde entendimento, se assemelha muito á concepção pluralista de Empédocles, que no período dos pensadores originários, contrastava às noções aceitas de que o Arché e a Physis seriam um único elemento superior aos demais, com a novidade (para o Ocidente) do pluralismo dos elementos essenciais para a manifestação cósmica. Algo não é belo em si, mas antes, é percebido de forma bela, neutra ou desagradável. O objeto analisado aparenta ser o que representa para cada observador relativo, não deixando de ser o que é, além das representações que refletem os limites de compreensão de cada mecanismo receptor e tradutor inerentes a cada individuo. Da mesma forma que o telescópio James Webb estrutura imagens à partir do calor dos astros, tornando os objetos percebidos pelo espectro infravermelho em padrões de formas e cores perceptíveis à luz visível, a linguagem estrutura a nossa compreensão de Belo, Bem, Arte, Estética, etc; perceber e intuir o Belo é dar representação coerente e vida inteligível à produtos de outras ordens existenciais imperceptíveis, ou seja, trazemos à luz visível (obra de arte) algo que não é exatamente como o retratado pela obra (o Belo "imperceptível", produto do espectro infravermelho) , mas apenas é o resultado do que pode ser feito com a parafernália que possuímos para reconhecer o Belo ( ou apenas um dos seus infindos sentidos possíveis) ao campo do sensível. Para Wittgeinstein, "Problemas filosóficos são problemas de linguagem". Eu diria: "Problemas estéticos são problemas de linguagem".

   "Sobre aquilo que não podemos falar, devemos nos calar". Qual a essência do Belo? o que é o belo como predicado? As proposições da linguagem podem atingir a essências inteligíveis qualitativas que se apresentam como os fatos do mundo? Por exemplo, uma música considerada bela. Podemos ir decompondo a sua estrutura até chegarmos em seus elementos constituintes, os fatos atômicos, que no caso, seriam as notas musicais. Essas notas são as mesmas existentes em inúmeras outras canções, no entanto, devido aos arranjos ( fatos complexos) de cada qual, "algo" soa agradável ou desagradavelmente aos indivíduos particulares que, com suas perspectivas seletivas e graus de coerência subjetivos de gosto particular, "sentem" a beleza de uma música, a mesma que pode gerar repulsa à outros ouvintes. O gosto reside entre a razão e a sensibilidade, evocando representações imaginativas para conferir maior impacto sobre os efeitos da experiência estética individual.

   Para Pitágoras, a Arché seria a proporção harmoniosa, como os sons orquestrados numa sinfonia. Se levarmos em consideração a teoria das supercordas de Stephen Hawking, e as particularidades do movimento vibratório, como o ritmo(repetição), a força(amplitude) e a forma(ondulação), perceberemos que tudo no universo está vibrando em frequências distintas, como se Deus fosse um guitarrista produzindo a Criação universal temporária como uma música, e cada ente existente nesse cosmos seria uma nuance melódica dessa tríade insondável: Criador, Criação e criatura; tudo sendo o mesmo-Nele-próprio-com-Ele.
A apreciação artística independe de juízos de valor estéticos, ou regras que apontem e delimitem o campo do conceito de arte, assim como respirar independe do conhecimento sobre o processo respiratório. Os indivíduos na pré-história eram artistas natos, pois buscavam o sentido das coisas pelo encadeamento narrativo-simbólico-alegórico engenhoso, livres de vieses, estabelecendo verossimilhanças didáticas que refletissem o conteúdo de suas intuições diretas sobre o mundo. O homem mitológico, analogamente, utilizava-se de metáforas e figuras para expressar suas concepções estéticas de mundo. Nietzsche diz que os conceitos, tão valorizados à partir do advento do período filosófico, são "resíduos de metáforas". Logo, seria o mito superior ao discurso lógico-racional, quando o objetivo é sensibilizar e preencher o interlocutor com a compreensão que visam transmitir?

   A importância da arte no ensino pode se resumir como a busca pela liberdade dentre os padrões e estilos hierarquizados, sejam de ordem política, ética, estética, econômica, religiosa, etc. Se o calçado aperta, troque o mesmo, não o próprio pé. A arte é a devolução do indivíduo para ele próprio, descartando as inúmeras lentes pelas quais o ente percebe e considera os objetos sensíveis como os objetos sensíveis que ele foi doutrinado em considerar da forma que pensa perceber. Reduzir a arte à mercadorias da indústria cultural é o mesmo que resumir o fenômeno OVNI ao caso do E.T. Bilú, e tantas outras formas vexatórias de abordar o assunto por parte dos meios de comunicação em massa, pertencentes aos interessados pela manutenção do Status Quo. Dionísio não é o patrono das Artes ( no plural mesmo, pois pode não se reduzir à um único princípio universal e singular) à toa! Contrastando com as qualidades apolíneas, tão valorizadas no realismo artístico, o aspecto dionisíaco pode ser evidenciado no Free-Jazz e na assimetria e imperfeição das obras de Pablo Picasso, onde o impacto não-mimético na originalidade de suas composições de cores e formas, nos remete ao conceito Fukinsei, da filosofia japonesa, onde o espectador produz a simetria que "falta" à obra, participando do processo criativo.

   Compreendemos, exprimimos e construímos, graças a arte de compreender, exprimir e construir. A Arte é um caixote em que subimos para podermos espiar pela fechadura do portão que marca a fronteira entre o prático e o metafísico, o Mistério do Enigma Essencial, durante a nossa jornada de iluminação, da mesma forma que a Filosofia é a arte de ser amigo da sabedoria.

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